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FRANCISCO VELOSO
Professor João José de Oliveira Veloso
Historiador e Fundador do Museu
Baluarte da História e do Patrimônio de Cunha
In Memoriam

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UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA E DE LUTA
A REVOLUÇÃO DE 1932 EM CUNHA
A Revolução Constitucionalista foi um movimento armado iniciado em 9 de julho de 1932, liderado pelo estado de São Paulo, que defendia uma nova Constituição para o Brasil e atacava o autoritarismo do Governo Provisório de Getúlio Vargas. Durante quase quatro meses, os paulistas entraram em confronto com tropas fiéis a Vargas e, isolados, foram derrotados. O levante não foi em vão, pois, em 1934, era promulgada a nova Constituição brasileira.
Autor: Professor João José de Oliveira Veloso
ORIGENS
A Revolução de 1930 caracterizou-se por um movimento político-social, com forte apoio militar, que destituiu o Presidente Washington Luís e impedindo a posse do então Presidente eleito, Dr. Júlio Prestes. Em decorrência do movimento revolucionário, acabou assumindo a chefia do governo o Sr. Getúlio Vargas, então candidato derrotado na eleição presidencial, considerada por ele, e seus adeptos, como processo eleitoral viciado, pleno de fraudes, prática frequente na antiga Primeira República (1989-1930). Após a vitória militar, seu chefe civil Getúlio Vargas suspendeu a Constituição de 1891, prometendo a realização de uma nova Constituinte, para a preparação de um novo texto constitucional.



O tempo passava, e o Presidente provisório não tomava providências concretas para conduzir o governo à preparação da nova Constituição Brasileira, a fim de retomar a normalidade democrática, mas sob novas bases.
Em face das protelações do governo, o Estado de São Paulo, juntamente com líderes políticos de outros estados, reclamavam urgência para a normalização democrática, canalizando os anseios contra o autoritarismo e organizando a manifestação popular em torno da causa pela constituição. Em face da dúbia conduta do Presidente Vargas, e por não haver órgãos legislativos onde pudessem ecoar os anseios da população, os democratas passaram à fase conspiratória, tramando a deposição do governo discricionário, implantado em 1930; que, aliás, assumira compromisso de repor o país na senda da democracia, pela correção das distorções e vícios praticados durante a primeira república, tais como: fraude eleitoral, reforma político-partidária, freio ao predomínio dos Estados mais desenvolvidos economicamente (política do café com leite), reforma social e retorno das eleições gerais livres, pondo fim à nomeação de interventores nos Estados nomeados pelo governo federal.
Em São Paulo, no ano de 1932, cresceu a movimentação política e popular, culminando com confrontos entre manifestantes e a polícia ditatorial, o principal ocorrido em 23 de maio, que levou à morte quatro jovens; é o conhecido episódio do MMDC, que serviu de símbolo para os resistentes paulistas, pois, significava a inicial dos três prenomes desses jovens e o sobrenome do último, vitimados pelas forças repressivas: Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo. Em nove de julho de 1932, eclode a revolução, iniciada em São Paulo, e que esperava contar com apoio das forças civis e militares descontentes em outros estados, como o Rio Grande do Sul, Minas, Mato Grosso e Rio de Janeiro.
O plano original paulista, que previa a ofensiva rápida sobre o Distrito Federal, a fim de efetuar a deposição imediata do Presidente da República, teve de ser alterado para fortalecimento da defesa das fronteiras paulistas, uma vez que não houve a prometida adesão dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. O avanço das forças revolucionárias paulistas deteve-se próximo à fronteira do Estado vizinho, o Rio de Janeiro.
Participantes da Revolução Constitucionalista de 1932
Euclydes de Figueiredo, participante do movimento, escreveu em seu livro, Contribuição para história da Revolução Constitucionalista de 1932, que, até o início do confronto, São Paulo contava com o apoio e o envio de tropas de Mato Grosso e Rio Grande do Sul, estados que também demonstravam insatisfações com o autoritarismo de Vargas. No entanto, quando o combate começou, ambos optaram pelo lado varguista, abandonando os paulistas.
Em 9 de julho de 1932, as tropas paulistas iniciaram a luta armada liderada pelo general Isidoro Dias Lopes. O interventor Pedro de Toledo, varguista no início da sua gestão, logo após o início do conflito, mudou de lado e apoiou os constitucionalistas. Os revolucionários organizaram uma intensa campanha publicitária pedindo apoio da população para que o conflito obtivesse sucesso. Os jovens foram convocados para lutarem nos campos de batalha, e os industriais suspenderam suas produções e iniciaram a fabricação de armamentos para o confronto.
Para financiar os soldados paulistas, foi criada a Campanha do Ouro para o Bem de São Paulo, em que a população era convocada a doar seus objetos de valor em prol da causa constitucionalista.
O apoio dos gaúchos e dos mato-grossenses não veio, e os paulistas tiveram que lutar sozinhos. O governo de Minas Gerais também apoiava a luta em defesa da Constituição, mas preferiu ficar do lado de Getúlio Vargas. A suspeita de que os paulistas estavam lutando pela independência do estado diminuiu o apoio de outros estados brasileiros ao levante.




Conflitos armados
Os conflitos aconteceram principalmente na região do Vale do Paraíba, nas divisas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, principalmente na divisa paulista e mineira.


Os conflitos aconteceram principalmente na região do Vale do Paraíba, nas divisas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, principalmente na divisa paulista e mineira. As tropas paulistas tentaram resistir às investidas das forças varguistas, com a capital paulista sendo atacada por aviões governistas. O criador do avião, Alberto Santos Dumont, morava em Santos, cidade do litoral paulista, e, quando soube que a sua invenção era usada para matar concidadãos, suicidou-se, em 23 de julho de 1932. Vários jovens combatentes perderam suas vidas durante a luta. Muitos não tiveram treinamento necessário para atuar no campo de batalha, pegando em armas somente pela causa constitucionalista, como recorda Euclydes Figueiredo.
O sul de Minas Gerais registrou intensos combates. As tropas mineiras foram deslocadas para a região da cidade de Passa Quatro, para atacar os paulistas que já estavam alcançando o território. Mineiros e paulistas travaram intensos combates em um túnel da estrada de ferro que ficou conhecido como Túnel da Mantiqueira.
Nesse local atuaram duas personalidades que teriam destaque na política nacional nas décadas seguintes. Benedito Valadares foi chefe de polícia de um dos destacamentos militares de Minas Gerais. Logo após o conflito, Valadares ganhou a confiança de Getúlio Vargas e foi nomeado interventor de Minas Gerais. Juscelino Kubitschek participou do combate como médico. Ele atendia aos feridos nos hospitais de campanha. Foi durante a Revolução de 1932 que os dois se conheceram. Ao assumir a Interventoria de Minas Gerais, Valadares nomeou Kubitschek para ser prefeito de Belo Horizonte.
O INÍCIO DO AVANÇO DAS FORÇAS LEGALISTAS EM CUNHA
Resumiremos os acontecimentos passados entre 12 de julho até 02 de outubro, data da deposição das armas dos revolucionários paulistas.
1 – 12/07/1932
O Batalhão da Marinha chega a Paraty à noite no Scout “Rio Grande do Sul”. Desloca-se, em seguida, para a serra de Paraty e se estabelece no bairro do Taboão – sob o comando do capitão - tenente Augusto do Amaral Peixoto. (Depois genro de Getúlio, pelo casamento com sua filha Alzira.)
2 – 13/07/1932
O Delegado de Cunha e mais dois acompanhantes deslocam-se de carro para a serra de Paraty, para averiguar a presença de soldados legalistas, e acabam aprisionados pelas forças federais. Informam aos inimigos que Cunha está desguarnecida.
Na mesma noite, um oficial e mais oito homens seguem para Cunha para destruir a linha telefônica e elementos de comunicação. Era a patrulha de reconhecimento.
Nessa noite essa patrulha entre o “Morro do Apertado” e o atual “Filtro”, atiram em Benedito Firmino – estafeta que fazia a correspondência de correio entre Cunha e Paraty. Ferido, ainda atira no escuro e acerta dois soldados da Marinha. Amedrontados com os tiros a esmo da população, retrocedem nessa noite, temendo tratar-se de força paulista.
Verificando que não havia mesmo força paulista na cidade, os oito fuzileiros e o oficial, ainda no carro que tomaram do delegado, retornam à cidade na noite do dia 14/07. Efetuam ainda a prisão do prefeito – Antônio Carlos Freire – e do Sr. Juiz – Dr. Pedro Martha, soltando, ainda, os presos da cadeia pública, danificando o serviço telefônico da cidade, impedindo que o juiz tivesse podido comunicar-se, pelo telefone, com a delegacia; no entanto, as autoridades de Guaratinguetá já haviam sido avisadas da presença de tropas ditatoriais no Taboão, em Cunha, por informação de um motorista de caminhão leiteiro, que percorria a linha de leite no trajeto Cunha-Guaratinguetá.
Coincidentemente, por sorte dos cunhenses, na mesma noite em que chegou a patrulha de marinheiros – que prendeu as autoridades – surgiu uma ajuda inesperada, a presença de um caminhão com voluntários de Guaratinguetá, que cientificados da presença inimiga, dispararam tiros a esmo e amedrontando os soldados legalistas.
Nesse momento, Dr. Pedro Martha, prisioneiro nas mãos do inimigo, conseguiu gritar aos rapazes: – Atirem! Estou preso! São soldados do Getúlio!
José Limonge, um dos rapazes da patrulha paulista, simula voz de comando e ordena aos companheiros:
- Tragam a metralhadora! Arraste para cá!
E todos deitados no caminhão, desfecharam muitos tiros.
Estabeleceu-se confusão total. Os fuzileiros tomam posição e há grande tiroteio. Finalmente, os soldados legalistas se retiraram, permanecendo dois soldados presos pelos paulistas.
Na mesma noite, os revolucionários conseguiram reparar o serviço telefônico, instalando outro aparelho no muro do Cemitério, e lograram comunicar-se com o delegado de Guaratinguetá – Dr. Venâncio Ayres; No dia seguinte – 15/07, chegaram as forças de reforço de apoio.

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CERCO DA CIDADE
Cunha estava quase sitiada pelos legalistas (cariocas). Com a comunicação praticamente cortada, a cidade se assemelhava a uma ferradura com os flancos recuados. A queda de Cunha acarretaria a retirada imediata de toda a tropa do Cel. Figueiredo, deslocada para guarnecer o setor de Guararema, sendo que o setor do Vale do Paraíba ficaria desguarnecido. Seria praticamente o fim da Revolução Constitucionalista.
Era necessário que se fizesse alguma coisa rapidamente, para sustentar a posição da cidade.
O Tenente-Coronel Mário da Veiga Abreu, comandante das tropas em Guaratinguetá, elaborou, junto a seus oficiais auxiliares, um plano de manobra secreta para surpreender as tropas legalistas, que já se consideravam vencedoras. A ofensiva, segundo o plano de manobra, tinha como meta o segredo, a rapidez e o arrojo e a tenacidade das tropas constitucionalistas.
Com a linha telefônica recuperada, procedeu-se, então, à reação.
Eis, portanto, a ordem expedida pelo Cel. Mário da Veiga Abreu, com relação à seguinte estratégia do plano de ação:
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“A 2ª Cia. e uma Séc. de Metrs. P., tudo do 4º B.C., sob os Comandos respectivos dos 1.os Tens. do Exército, Assis Brasil e Euryale de Jesus Zerbini deveriam deslocar-se de Ubatuba para a Fazenda Galvão (S. O. de Cunha), e atacar o flanco esquerdo ou retaguarda, segundo o eixo, Abóboras-Gândara-Bruno. Total 110 homens.
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O Ten. Eugênio Lacorte, do 4º B. C., com 150 homens, do Btl. Arquidiocesano, deslocar-se-ia de Lagoinha para a Usina via Fazendas Santana e Galvão (estrada da Catioca), devendo atacar o flanco esquerdo adversário, em ligação com a Cia. de Patriotas do Major Adonias da F. P. .Provável eixo de ataques: Faz. Galvão, Praia, Encontro, Itacurussá. Total 250 homens.
Após a tomada da Usina, o Btl. Arquidiocesano rumaria para Gândara, aonde agiria em ligação com a tropa do Ten. Assis Brazil, protegendo-lhe assim o flanco esquerdo.
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Outra Cia. de Patriotas do Major Adonias (100) homens, ficaria no Facão de Baixo, à espera da tropa do Ten. Meirelles Maia do 4º B.C. . Com a entrada em ação dessa tropa, o contingente do Major Adonias teria por missão proteger o flanco direito da tropa do Ten. Meirelles Maia, apoiando-lhe a ação se necessidade houvesse.
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De Campos Novos de Cunha deveria partir um contingente composto da 1ª Cia. do 4º B. C. (100 homens), uma secção de Mtrs. P. do 4º B. C. (20 homens) e um pelotão (30 homens), composto de soldados da F. P., e do Btl. Da Liga de Defesa Paulista. Este contingente sob o comando do Tem. Meirelles, deslocar-se-ia para as margens do Jacuhy, pela estrada do Bugio. Desse ponto e tendo à sua disposição a tropa do Major Adonias (100 homens), atacaria o flanco direito adversário, segundo o eixo, Canjara-Oriente-Munjolo.
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A guarnição de Cunha (900 homens), sob o Comando do Major Virgílio Ribeiro dos Santos, da F. Pública, continuaria a fixar o adversário de frente, até o momento em que o avanço fosse permitido.
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A artilharia (UM CANHÃO 75) do Ten. Alberico Cordeiro do 8º R. A. M., deveria fazer o acompanhamento immediato da tropa do Ten. Meirelles Maia, no flanco direito do adversário.
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O grupo de aviação do Exército Constitucionalista, por solicitação do Com. do Destacamento, bombardearia: Aparição, Taboão e caso possível, Capela de São José da Boa Vista.
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Antes da chegada da tropa dos Tents. Assis Brazil e Zerbini à Fazenda Galvão, o Ten. Lacorte do 4º B. C., deveria mandar guarnecer as pontes de João Marco e Mato Dentro. As referidas pontes só poderiam ser desguarnecidas, por ordem direta do Comando do Destacamento.
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Terminadas as concentrações das tropas dos Tentes. Assis Brazil, Meirelles Maia e Lacorte, as informações deveriam ser encaminhadas ao P. C. do Comandante do Setor Cunha
10- Objetivo para todas as tropas CONSTITUCIONALISTAS: Espigão do Divino Mestre, a cavaleiro da estrada Paraty-Cunha.
Tudo isso ocorreu durante o mês de agosto. Não se deve olvidar que, nessa altura, o governo federal providenciava o cerco a todas as fronteiras do Estado de São Paulo havendo, portanto, muitas frentes de batalha a serem enfrentadas pelo comando revolucionário paulista.
A estratégia das tropas constitucionalistas, planejada para a frente de Cunha, obteve êxito, fazendo retroceder, as tropas legalistas para o Taboão. No entanto, não souberam os constitucionalistas aproveitar a oportunidade de avançar mais além do Taboão. Subestimaram as forças legalistas, afugentadas no Taboão, e que acreditando que estivessem derrotadas.
Em 26 de agosto, muda-se o comando das tropas legalistas. O capitão Nelson de Mello substitui o capitão-tenente Augusto do Amaral Peixoto, reestudando o terreno e reorganizando os efetivos para novamente tentar avanço sobre Cunha.
ESTRUTURA DAS DEFESAS CUNHENSES
Estavam assim dispostas:
Reduto (Início do Morro Grande): Tenente Abílio Cunha Pinto e Tenente Wladimir Bouças.
Usina: Tenente Meirelles e Tenente Jorge Aguiar.
Comando Geral : Coronel Mário da Veiga Abreu – Guaratinguetá.
Comando em Cunha : Major Virgílio Ribeiro dos Santos, da Força Pública.
QUEDA E OCUPAÇÃO DE CUNHA
O comando geral das forças revolucionárias paulistas não soube administrar seu sucesso. Deixou os legalistas se reorganizarem.
A queda da cidade de Cruzeiro e o retraimento das forças constitucionalistas para Engenheiro Neiva repercutiram diretamente nas linhas defensivas paulistas em Cunha. Não era possível mais segurar o domínio da região conhecida como Divino Mestre, situada no caminho que ligava a Paraty, porque o Exército do Leste (legalista) estava avançando pela estrada Rio – São Paulo, já em território paulista.
Os revolucionários paulistas evacuaram a cidade e assumiram a defesa na região da Rocinha, destruindo a ponte do Paraitinga e minando as estradas.
Em 21 de setembro, a zona urbana de Cunha é tomada pelos legalistas; em 25 de setembro todas as forças paulistas haviam abandonado suas posições.
Em 02 de outubro os soldados da Força Pública e voluntários rendem-se ao Destacamento Newton Cavalcanti. E os que se rendessem não seriam prisioneiros, segundo os termos do “armistício”.
PRIMÓRDIOS DA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA EM CUNHA
Este texto sobre o impacto da revolução constitucionalista na pacata cidade de Cunha, em 1932, bem como o desenrolar de alguns combates no município, foi transcrito de um artigo manuscrito, organizado em 1935, pelo Sr. José Arantes, então titular do Cartório de Registros de Imóveis e Anexos de Cunha.
Obtivemos autorização de seu neto, Sr. Tarcísio José de Castro Arantes, para que pudéssemos ilustrar este capítulo com o referido texto.
“Toda a gente da cidadezinha de Cunha amanheceu alvoroçada. Homens, mulheres e crianças, enxameavam as ruas como nos dias de festa. Aqui, acolá, por todos os pontos, ruas e praças, pelas esquinas, reunidos em magotes, conversavam, gesticulavam, discutiam, dando cada um a sua opinião.
A novidade era grossa! Era de tal importância que abalara, sacudindo assim a pequena população, pondo-a em grande rebuliço.
Na véspera, à noite, o telefone tilintara. Atendido pelo Dr. Pedro Martha, Juiz de Direito da Comarca, disseram-lhe de Guará, que havia arrebentado a revolução em São Paulo. Desde então começou a circular a notícia pela cidade e seus arredores, espalhando-se célere pelo município.
O Club Recreativo Cunhense funcionava nessa noite de sábado, com maior animação. Ponto assaz frequentado pela elite, achava-se cheio, jogando uns o “truque”, sentados em derredor das mesinhas, outros o “pocker”, o “xadrez”, etc, enquanto outros jogavam “bilhar”, “Ping-Pong”, ao mesmo tempo em que no salão de baile, dançavam as moças com os rapazes, ao som da orquestra, quando chegou ali a notícia. Suspenderam-se imediatamente as diversões, e, no dia seguinte, sentia-se toda a população opressa sob o peso de uma pesada atmosfera de apreensões. Todos pressentiam o perigo e as consequências que poderiam provir do grande acontecimento e unânimes pediam providências urgentes. Parecia isto um presságio de mau agouro, porquanto nas outras ocasiões, como por exemplo, na revolta de 1924 e na revolução de 1930, causaram ela apenas um pequenino alvoroço pelo prurido da novidade, mas passado o primeiro momento, ninguém mais dera importância ao caso. Agora não; pelo contrário: notava-se em cada semblante a preocupação que tinha causado pelo movimento da grande campanha encetada por São Paulo, contra o governo ditatorial.
Passaram-se três dias: domingo, segunda e terça sem que houvessem tomado nenhuma providência, apesar das reiteradas reclamações. No terceiro dia, isto é, no dia 12, o Dr. Venâncio Ayres, Delegado Regional de Guaratinguetá, apareceu com seu escrivão e ordenança e mais auxiliares, a fim de proceder a umas averiguações sobre um caso suspeito. No Hotel Andrade, fez-lhe ver então, o Dr. Martha, o estado de ansiedade do povo, reclamando providências urgentes, o iminente perigo em que se achava a opressa população, ponderando-lhe que todas as probabilidades de êxito da revolução de São Paulo, estariam perdidas se Cunha fosse ocupada, com a entrada de tropas ditatoriais pelo porto de Paraty.
O Doutor Venâncio ouviu-o, prometeu tomar providências, regressando às duas da tarde para Guaratinguetá, e, no entanto, até o dia seguinte nada de satisfatório.
INÍCIO DOS COMBATES
Passaram-se dois dias depois que aqui chegaram as tropas paulistas, transformando a cidade numa praça de guerra, a exaltarem-se no afã dos preparativos para poderem encetar a campanha.
As viaturas rodavam incessantes com estrépito, roncando, buzinando, conduzindo tropas e materiais, enquanto os sapadores arregoavam o solo, rasgando trincheiras.
Iam iniciar-se os combates e terrível era a luta que iam empenhar-se: dois adversários que não cediam.
A altivez que não afasta, ia lutar com o orgulho que não se tende, ou seja a vindícia que não remite e o desespero que não recua.
“O implacável ia arcar-se com o inquebrantável”.
Ia travar-se o prélio de “fogo a fogo”.
Ia começar no setor de Cunha o pomposo drama de sangue fratricida da revolução arrebentada em São Paulo.
Ao terceiro dia, foi expedida uma patrulha para ir fazer reconhecimento dos lados das tropas invasoras. Partiu daqui de manhã e foi até um lugar chamado Rio Abaixo, além do alto do morro do Divino Mestre. Compunha-se essa patrulha de trinta e oito homens, comandados pelo aspirante Cardoso do 4º B.C.
Já era tarde e estavam com fome. Não havia ninguém. Aproximaram-se de uma casa que estava fechada. Abriram a porta e encontraram tudo de que precisavam para fazer um almoço: arroz, farinha, toucinho e um “vará” de linguiça dependurado no fumeiro. Além do que encontraram dentro de casa, ainda mataram uma leitoa para reforçar o repasto.
Era meio-dia: o sol assomando ao zênite derramava feixes de raios dardejantes, com todo seu esplendor e majestade.
O local em que estavam é a residência de um pequeno proprietário, e consta da casa de morada, coberta de telhas, paiol, chiqueiro, cobertos de palha, um pequeno pasto cercado de vale, cortado ao meio por um riacho, que corre serpenteando, borborinhando pelo leito estreito, orlado nalguns lugares por duas orlas de capitubas viventes.
Esse lugar fica numa grota, tendo de lado a lado morros que se elevam cobertos de mato. Está na vizinhança da fazenda da Aparição, de propriedade do sr. Benedito Jango, onde estavam acampados os ditatoriais. A estrada que de lá vem, passa beirando o terreiro da casa, onde se achava a patrulha constitucionalista.
Para dentro do terreiro cercado a varas, estavam os paulistas, deitados alguns pela sombra dos beirais, outros de pé, palestrando e espreitando por todos os lados, ao mesmo tempo, com a vigilância que o caso exigia, enquanto os mais conhecedores da arte culinária preparavam o lauto almoço.
Por dentro do terreiro cantavam os galos, cacarejavam galinhas: os passarinhos chilreavam nas árvores. Os homens que estavam por fora da casa faziam boca ao repasto, engolindo cuspo, com o cheiro ativo que sentiam, tresloucado do leitão e das linguiças que chiavam nas frigideiras. Os estômagos pediam e estavam ansiosos, além disso, aquele cheiro era mais que convidativo. Esperavam somente pelo almoço...
De repente, uma voz agradável anunciou:
- Está tudo pronto ! Venham almoçar !
As panelas dispostas pelo chão da sala ofereciam os seus conteúdos. Era um banquete opíparo; devia saber bem ao paladar e dada a hora...
Não passara ninguém na estrada, nem notícia de marinheiros... !
Rodearam as panelas e, quando iam servir-se, rompeu o fogo do mato fronteiro. Imagine o leitor o susto, o medo, o terror!...
O destemido João Galvão lá esteve e me contou que foi um Deus nos acuda ! Valeram-se de um valo, por onde esgueiraram-se, arrastando-se, como répteis, até alcançarem o mato; e lá, ficou o almoço intacto, recendendo aquele cheiro bom que tanto provocara o apetite dos bravos homens da patrulha constitucionalista.
Aqui chegados, com os estômagos cheios de brisa comunicaram as ocorrências ao tenente Abílio, comandante do 4º B.C, o qual disse que era mais prudente esperarem os homens, nas trincheiras, quando eles quisessem vir. E vieram.
Declinara o dia e chegara a noite formosa e plácida, como costumam ser as dos nossos invernos, a lua crescente beirando a cheia, rompia por um céu limpo, puro, argenteando as matas e esbatendo-se a luz lasciva pelas verdejantes cumeadas do morro do “Vira-Saia”, onde estavam entrincheiradas as tropas constitucionalistas, magnífico ponto estratégico, donde domina ao longe todas as vertentes do morro da Boa Vista e Divino Mestre, onde se achavam as tropas invasoras; lamentável contraste das contingências humanas !
Uma noite linda, um tempo bom: o frio seco e suportável do excelente clima quase que não castigava; e respirando ar puro do campo fazia bem, e no entanto, esses pulmões que respiravam e recebiam com prazer, o odoroso ozone do oxigênio benfazejo deste salubérrimo clima, iam ser quantos deles!... dilacerados por balas, numa luta fratricida e cruenta.
E a beleza da noite, a firmeza do tempo contribuíam para isso; o pitoresco do sítio ia servir de teatro para esse espetáculo cruel, brutal e desumano.
A luz do luar ia servir de círio às câmaras ardentes; o solo duro, pedregoso e frio, de ataúde, os estômagos dos corvos e dos cães de sepultura !
E assim, no seio de uma noite bonita, alegre e calma, no cenário de um recanto aprazível e ameno, ia esboçar-se o quadro horripilante e lúgubre da mortandade da guerra com a tristeza feral de um cemitério, como aconteceu.
Ao fechar a noite, aproximaram-se as tropas ditatoriais das tropas paulistas, e tomando posições de fogo, à distância conveniente, iniciaram-se os combates.
O fogo abriu-se de parte a parte, numa luta encarniçada, cerrado, incessante, durante toda a noite sem um instante de tréguas... Ao raiar d’alva parou, fendendo pouco a pouco os largos horizontes do crepúsculo matinal, os raios prateados do dia, beijando os píncaros dos montes, vieram iluminar esse cenário horrivelmente mortuário.
E os paulistas que estavam no alto do morro, e nunca tinham visto, desse lugar, o soberbo e deleitante espetáculo da natureza, ao romper da aurora, contemplaram atônitos e deslumbrados o vasto e lindo panorama que os circundava, e, ao mesmo tempo condoídos, o espetáculo apavorante daquela noite, cujas cenas descarnadas e nuas se desvendavam aos seus olhos espavoridos e espertados pela vigília da noite.
As baixas nesse combate, como em todos os outros que se seguiram, dormem no incógnito.

OS CANHÕES
Poucos intervalos havia que não se ouvisse o troar dos combates a ressoar por detrás das colinas em derredor.
A luta era quase incessante, mas nem um tiro de canhão.
A ausência desta arma por parte do inimigo fazia com que a cidade se mantivesse livre do bombardeio que viera depois.
Guarnecida e bem resguardada pela sua ótima posição estratégica, achava-se em segurança, dadas a essas condições e ao valor dos homens espalhados pelas trincheiras inexpugnáveis.
Pacata e uma das incluídas nas “Cidades Mortas” de Monteiro Lobato, tomara, entretanto, o aspecto de uma cidade importante, com as ruas movimentadas de gente e de carros que rodavam a todo momento roncando, fazendo estrépitos. A soldadesca parecia achar-se em festa, porquanto via-se esta gente alegre, satisfeita, entusiasmada e cheia de garridice, como se não estivesse em guerra. Tal era a moral das nossas forças. No entanto, os combates ferviam dia e noite. Não obstante, os que estavam de folga, formavam grupos, empunhavam violão, bandolim e flauta, davam concerto, faziam tocatas, como se estivessem num “Garden Party”, sem nenhum receio do menor perigo.
A casa do mercado servia para tudo. É um prédio construído de tijolos vermelhos, de estilo moderno, situado à rua D. Lino, o que embeleza o centro da cidade.
Guardavam ali quartos de boi, cunhetes de munição, etc. Servia de dormitório e até de banheiro, no poço cimentado da área, onde são expostas as mercadorias à venda, pois os soldados banhavam-se ali, sem o menor decoro de uns para com os outros.
Tinha chegado um canhão.
Era meio dia e fazia quase calor, apesar de inverno.
Nos primeiros dias viera aqui um 75, ficando entre nós apenas dois dias; fora ao reduto, dera 18 tiros para o campo de operação dos ditatoriais e voltara para Canas.
Sabendo que tinha chegado o canhão no mercado, para lá me dirigi, a fim de ver essa importante peça de guerra, uma das mais antigas e sempre empregada na destruição do gênero humano. Estavam acabando de armá-lo. Havia lá mais alguns curiosos. O Tenente Alberic Cordeiro, comandante artilheiro, bom homem, prestou-se amavelmente a satisfazer as nossas curiosidades, explicando-nos tudo quanto se lhe perguntava. Depois mostrou-nos as granadas, explicando-nos os efeitos daqueles enormes balázios ao detonar.
Inteirado de tudo, deixei o mercado e me dirigi à praça Cônego Siqueira, encontrando ali, ao lado que sobe a rua Comendador João Vaz, um numeroso grupo de gente em festa, batendo palmas e aplaudindo as modinhas de um alegre cantor.
Aproximei-me do grupo e deparei-me sentado numa das portas laterais da igreja matriz, com um rapaz espigado e trigueiro, olhos vivos, perspicazes, indicando sagacidade, rosto magro, comprido, nariz fino e aspecto de folgazão. Tratavam-no pelo apelido de “Zulu”, e era do 4º B.C, do tenente Abílio.
Sentado à soleira, cantava, acompanhado por um violão, executado pelo professor Carlos Aliandro, que também se achava sentado à mesma soleira.
Ouvi, também, algumas modinhas, aplaudi, compartilhei-me do folguedo, e, quando ia retirar-me vi um outro grupo no meio da praça vindo do chafariz, em frente à fachada da igreja.
Era uma roda de soldados com alguns civis, formando um círculo. No meio, um homem desses nossos da roça, robusto, possante, palrava como um gárrulo, falando, gesticulando, dando com mãos e pernas, contando mil novidades, interrompido sempre por uma pergunta.
Dirigi-me para lá, e quando aproximei-me, o homem estava dizendo na sua linguagem de homem do mato, tal qual como vou reproduzir.
- São dois baita canhão daqueles que ...
- Cento cinco ?
- Home, não sei, mas só sei dizê que é daqueles que onde bate a bala, corta, roça, arrasa tudo que é um dia de juízo !
- Mas você viu ?
- Ora se vi ! ... pois se eu fui um dos presos, que fui preso na minha casa lá no bairro da Parição e enfiado no meio dos outros companheiros, que também fora preso e fumo escoltado para Paraty, pra trabaiá na carregança daquilo tudo, que sobe a serra no lombo de burro e costa de gente.
Interrompido por uma pergunta, respondeu :
- Chi ! tem gente preso lá, como formiga; tem prá mais de quinhentas pessoas!
- E como pode escapar ?
- Ah, muito bem ! piei um jeitinho e dei o fora.
- Mais como eu ia dizeno : os malvado fazia nós carregá peso a cacunda, que quase matava nós desde o Paraty até o lado da serra. Quando foi antonte, o tenente que recebeu os trem que nós trouxemos, disse : “agora volta tudo para dezê os canhão”.
- Voltemo prá trais e pequeno aquela trenzada dos dois canhão, um porco alciado e dependurado no lombo de burro e outro porco carregado nas costa e a pulso de braço.
- E onde vão colocá-los ? perguntou um.
- Lá bem no alto do morro do Divino Mestre, onde enxerga aqui na cidade.
- Então não devem demorar a atirar ?
- Escutem ! disse um.
Um ronco no ar chamou a atenção de todos. Eram os aeroplanos.
Desde os primeiros dias da revolução jamais deixaram de visitar este setor, ora em reconhecimento, ora arremessando rajadas, ora soltando granadas com estampidos medonhos, causando grande pavor.
Este incidente veio dispersar imediatamente os agrupamentos.

28 DE JULHO
Novo bombardeio de aviões realizou-se no reduto, mas desta vez os bravos paulistas tiveram que se haver, em vez de um, com dois possantes aparelhos.
Já havia mais reforços: tinha chegado de Guará duas Cias. da Legião Negra e um canhão 75. Chegara, também um Batalhão da Liga da Defesa Paulista, ficando uma parte na ponte do Paraitinga, vindo a outra para a cidade.
O ataque do inimigo aumentava cada vez mais forte, pois acrescido da guarnição de Mato Grosso, Polícia do Espírito Santo, Polícia do Estado do Rio, muita cavalaria e artilharia, tornara-se o seu número considerável, não só em homens, como em arma automática.
Conhecendo a inferioridade numérica das nossas forças e a superioridade de armas, atacava com mais intensidade.
No dia 28 de julho, entretanto, uma manhã clara e belíssima reinava calma, admirando-se todos daquela trégua em hora de forte combate.
O sol assomava subindo para o zênite. Dois automóveis partiam para o reduto, levando o major Camargo e outros que faziam parte da comitiva.
A parte do Batalhão da Liga da Defesa Paulista que estava arranchada no Hotel Andrade, formou na praça em frente da Matriz, recebeu umas instruções militares e seguiu, também em visita às trincheiras do reduto. Subiam todos enfileirados o morro do Apertado, quando ouviram um ronco de avião. Eram dois que se aproximavam. Esconderam-se logo no mato, às margens da estrada. Ouvindo o ronco, saí à janela da minha casa e pus-me a observar, vendo e ouvindo, como da primeira vez, o bombardeio de nossas trincheiras; mas agora com mais intensidade pelos possantes aparelhos que volteavam por sobre a cidade, causando um pavor terrível e rumaram para o reduto, soltando lá os petardos que estrondavam com estampidos medonhos! Depois de terem lançado algumas bombas, percebi que um fora atingido por uma rajada de uma das metralhadoras, porque parecia que ia cair ali mesmo, voando, entretanto, meio desgovernado para o lado de Paraty. O outro arremessando duas formidáveis bombas de uma só vez, talvez receando ter a mesma pouca sorte do amigo, rumou para a mesma direção da serra de Paraty.
Uma hora depois soube que foi uma rajada bem dirigida pelo mesmo tenente Bouças que fez o pássaro retirar-se meio desgovernado.
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Paulo Gonçalves dos Santos (Paulo Virgínio)
O primeiro levantamento da vida e morte de Paulo Virgínio foi realizado pelo senhor José Arantes, distinto titular do cartório de Registros de Imóveis e Anexos de Cunha, que no papel de escrivão de juiz teve em suas mãos cópia da denúncia, oferecida pelo Dr. Promotor Público da 2ª. Auditoria da Primeira Circunscrição Militar da Capital Federal, cópia do depoimento das testemunhas inquiridas no inquérito aberto no local do dia do fuzilamento de Paulo Virgínio, e cópia do relatório da autoridade que processou o inquérito.
De posse desses importantes documentos, pôde o Sr. José Arantes atender à solicitação do Sr. J. A. César Salgado, diretor do departamento da cultura cívica do clube Piratininga, de São Paulo, segundo carta endereçada a ele em 20/07/1935.
Pretendia, portanto, o referido clube, comemorar em agosto daquele ano a vitória de Cunha sobre as forças da ditadura e nessa comemoração não poderia ser esquecido o nome de Paulo Virgínio.
Para tanto, enviou-lhe um questionário sobre a vida e circunstância da morte de Paulo Virgínio, o qual utilizou num boletim sobre o Herói Cunhense, com clichê da viúva e dos três filhos, em 20/08/1935.
Paulo Gonçalves dos Santos era seu verdadeiro nome, nascido e criado no bairro do Taboão, município de Cunha, possivelmente em 26 de setembro de 1897 (baseando-se em seu batistério) tendo em vista ter sido arrancada pela ditadura a folha do livro de registro, relativa ao seu nome. Seu pai chamava-se Virgínio Gonçalves dos Santos e a mãe Dª. Maria José de Jesus, daí a razão de seu apelido Paulo Virgínio ( filho de Virgínio, ou Paulo do Virgínio), modo muito peculiar de se denominar os filhos no interior deste Estado.
Lavrador humilde e batalhador vivia com a família – a esposa, Juventina Maria de Jesus e os quatro filhos menores – José, Virgílio, Julia e Clotilde (que faleceu durante a revolução), no bairro do Taboão, distante da cidade de Cunha, aproximadamente quinze quilômetros, longe das tribulações de um centro urbano, junto ao aconchego do universo familiar.
A partir de 10 de julho de 1932, os bairros do Rio Abaixo, Aparição, Campo Alegre, Taboão e Mato Limpo passaram a ser “zona inimiga” e em termos de um “outro país”, porque aí se aquartelavam os soldados legalistas, mantenedores do estado ditatorial, que perdurava já há quatro anos. Os tropeiros e as demais pessoas desses bairros necessitavam de salvo-condutos para circular pelas redondezas, e, como num estado de guerra, algumas tropas de animais foram requisitadas pelos ditos soldados para supri-los de munição e víveres, buscando-os em Paraty.
Além disso, muitos homens desses bairros eram obrigados a trabalhar, também, a soldo de comida, deixando os familiares escondidos no mato, à deriva.
Tudo corria difícil, porém, corriqueiro nesses bairros, embora muitas famílias, temerosas de males piores, abandonassem as fazendas, sítios e casas, para alegria dos soldados que se fartavam do gado, animais de carga e de sela, porcos e víveres, evidentemente, deixados à sua própria sorte pelos seus proprietários.
Além dos tropeiros, os ditatoriais precisavam de batedores ou informantes, que lhes conduzissem a Cunha, através de trilhas secundárias, que margeassem o rio Jacuí, de modo a tentar surpreender as tropas paulistas, acantonadas em locais estratégicos na estrada principal; o objetivo principal era o de estabelecer o domínio da cidade, para, posteriormente, e atingir o Vale do Paraíba.
Receosos de serem obrigados a ensinar-lhe esses caminhos secundários, e assim contribuir para a derrota dos Paulistas, todos os homens procuravam fugir para bairros distantes, em zona sob o domínio dos paulistas, ou mesmo, enfurnarem-se nos sertões de difícil acesso, enquanto suas mulheres ficavam quase todas juntas, à mercê da situação, quando não se dirigiam para casas de parentes e amigos, fora do raio da região em conflito.
À noite, os soldados vasculhavam as casas dos moradores à procura de homens que pudessem informar-lhes a respeito de trilhas que lhes pudessem ser úteis, ou mesmo indicar as posições das tropas paulistas nas redondezas; cientes disso, eles dormiam no mato, atemorizados.
Para ira dos ditatoriais, nenhum dos homens que conseguiram agarrar sabia ou dizia não saber, desses caminhos marginais. Restavam dois ou três moradores que ainda estavam escondidos numa região longínqua, supostamente próximos de algum dos redutos paulistas. Dentre eles ali se ocultava Paulo Virgínio, que os legalistas queriam agarrar, embora não o conhecessem, porque foram informados que ele sabia onde estavam as tropas paulistas. E para pegá-los, o comandante das tropas, já avisado por alguém do local onde permaneciam homiziados, simulou uma requisição, mandando alguém da região avisá-los, a fim de que comparecessem ao acampamento para providenciar uma requisição, enumerando o que fora perdido ou requisitado pelas tropas invasoras, para que, depois do término da revolução, tudo lhes pudesse ser restituído ou pago.
Paulo Virgínio e um ou dois amigos faziam roça num local nas adjacências do bairro do Taboão. Para chegar ao seu local de trabalho, eles teriam que ter permissão das tropas paulistas, que permaneciam no meio do itinerário, com o acordo de não relatar aos legalistas sua posição. Paulo Virgínio e seus amigos faziam esse percurso diariamente, saindo de madrugada para suas roças, retornando à tarde para suas casas no Taboão.
E assim, Paulo Virgínio e mais um ou dois amigos vieram atender ao comunicado, porque dele mesmo havia sido apropriado pelos “cariocas” um animal e outras coisas. Assim que surgiram, um de seus companheiros presos pelos legalistas disse ao comandante, apontando para Paulo Virgínio, que ele costumava passar próximo onde estavam postadas as tropas paulistas. Dois ou mais soldados invasores, após esse fato, permaneceram de tocaia; quando surgiram na estrada que adentrava o bairro do Taboão, foram presos e Paulo Virgínio – que eles queriam agarrar - amarrado com as mãos às costas.
A partir do momento de sua prisão (4 horas da tarde, aproximadamente, no dia 27 de julho de 1932), Paulo Virgínio passou a receber insultos e ser agredido pelos soldados ditatoriais, porém a tudo resistiu calado, recusando-se a revelar as posições. E, os presos ficaram numa casa à beira da estrada, no bairro da Aparição, permanecendo Paulo Virgínio a noite toda amarrado, ora de pé, ora sentado, sem poder sair um só instante, enquanto seus companheiros tiveram permissão para atender normalmente para suas necessidades fisiológicas.
Ele não compreendia porque dentre tantas pessoas – cerca de nove, muitas delas parentes e as outras amigas, somente ele, estava sendo tratado daquela maneira. Ficava calado durante a noite toda, talvez por perplexidade, pois considerava sua situação humilhante não por estar preso com os demais, porque na revolução era fato comum entre os civis da região; porém, ter sido amarrado, açoitado e injuriado. Era pessoa simples, pobre, porém trabalhador, não merecendo esse tipo de desrespeito.
Entretanto, não sabia que havia sido apontado por um de seus próprios companheiros de cativeiro. Quem o fez, certamente o fez por ignorância e temor de ser morto, procurando safar-se de uma situação aflitiva, sem pensar na consequência drástica que haveria para o denunciado.
No raiar do dia 28/07/32, involuntariamente, Paulo Virgínio tornou pior sua situação. Saiu, a fim de satisfazer as necessidades fisiológicas, mas, em seguida, tentou escapar da prisão, saindo apressadamente, sem avaliar que estava sendo vigiado. Na pressa, escorregou e caiu no córrego que corria de outro lado da estrada, sendo visto e pego pelos soldados.
A partir dessa denúncia, iniciou-se o processo de seu suplício.
Levaram-no à presença do comandante Tenente Airton Teixeira Ribeiro e este prometeu-lhe liberdade, se contasse a posição das tropas. Paulo Virgínio sabia, no entanto, que prometera aos soldados paulistas, acantonados na região por onde passava para fugir dos “cariocas”, não revelar o local onde estavam e, assim, havia conquistado passagem livre entre eles. Ante a negativa de Paulo Virgínio, o dito tenente enraiveceu-se e entregou a vítima aos cuidados do sargento Juvenal Bezerra Monteiro, que lhe rasgou a camisa, desferindo-lhe socos e pontapés, no corpo já debilitado.
As afirmações de que era paulista e, que São Paulo venceria, deixavam os ditatoriais ainda mais ferozes. A água que fervia numa lata grande foi-lhe jogada no corpo já bem ferido e ensanguentado. Em seguida levaram-no à bica do monjolo (existente nos arredores da casa) e derramaram-lhe a água gelada do rigoroso inverno de julho sobre o seu corpo mutilado. Conduziram-no, novamente, à presença do referido tenente para responder as mesmas perguntas e ele reticente, enfatizou sempre o “não” e que “São Paulo venceria”.
Isto posto, o tenente Airton reconduziu a vítima ao algoz ( Sargento Bezerra ) para que este, desta vez, o fuzilasse.
Deram-lhe uma enxada e levaram-no sozinho a alguma distância da casa, onde estavam presos seus companheiros, para que ele cavasse sua própria sepultura; e nem bem terminara de completar os sete palmos de profundidade, deixou cair a enxada e gritou-lhes que “São Paulo venceria” e que sua morte seria vingada. Em seguida ouviram-se, à distância, os tiros desferidos pelos sargentos Juvenal Bezerra Monteiro, Roque Eugênio de Oliveira, Ascendino Paiva e o fuzileiro naval Raimundo Jerônimo, sobre o corpo que caiu inerte na sepultura, que ele próprio cavara.
Eram, aproximadamente, entre seis e sete horas da manhã de 28/07/32.
Morreu Paulo Virgínio, mas permaneceram, sua simplicidade, fidelidade à causa paulista, exemplos de bravura e autosacrifício a um ideal, valores que o transformaram em mártir e herói.
Merece, portanto, que lhe sejam rendidas, anualmente, por ocasião das solenidades comemorativas da revolução paulista de 32, as justas homenagens, não só dos cunhenses, mas de todos os paulistas, e o reconhecimento dos brasileiros que amam a liberdade.